Vinho, um produto cultural que se exporta

Visto que o tema recorrente do « made in France » (aliás « fabriqué en France « ou ainda « produzido na França) volta à atualidade para acelerar a economia, a França pode contar com dois elementos de satisfação : sua gastronomia, reconhecida no mundo inteiro e inscrita no Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco e... sua cultura, que de acordo com um estudo comum dos ministérios da Cultura e da Economia, contribui sete vezes mais ao PIB do país do que a indústria automobilística. Ótima novidade, o vinho possue essas duas dimensões gastronômica e cultural, melhor ainda : tem-se que reconhecê-lo como tal, sobretudo à exportação.

vinothèque vins bibliothèque

A vinhoteca, declinação líquida da biblioteca.

Obviamente, a organização de um ateliê de iniciação à enologia e degustação de vinhos do Sudoeste da França, realizado na Aliança Francesa de Natal, não vai de desencontro com a publicação deste artigo.

Ao trabalhar sobre essa temática e o interesse por um estabelecimento cultural francês no exterior, a dimensão cultural do vinho é simplesmente evidente. De sua história aos costumes, passando pela poesia e literatura, há muito mais a ser compartilhado do que apenas o conteúdo da taça.

Evidentemente, o vinho genérico e industrial ganhou seu espaço, principalmente aqui na América Latina, mas, exatamente como cada parte da « indústria cultural », é importante valorizar o trabalho e o interesse particular face aos modelos estandardizados ; do mesmo jeito que se pode diferenciar filmes de Wes Anderson de um blockbuster.

Claro que há gosto para tudo, mas você entende, leitor.


Uma dimensão cultural evidente

Os vinhos do Sudoeste Francês, os dos Mousquetaires de Gasconha, são perfeitos para a confirmação da característica cultural da vinha. Se os vinhos de Bordeaux ou da Borgonha têm uma reputação internacional e foram fontes de inspiração para grandes homens das letras e reis, as vinhas do Sudoeste possuem um patrimônio rico de tradições, história(s), « savoir-faire » e inovações. O batismo com o Jurançon do rei da França, Henri IV, a exportação dos vinhos de Gaillac, que data de antes do século VX, feita pelos rios Tarn e Garonne até à Inglaterra... Antes mesmo de Bordeaux impôr uma preferência em relação a esses vinhos : nas garrafas, há muito mais a oferecer do que o maravilhoso líquido.

Os vinhos de Côtes de Saint-Mont possuem um traço histórico indiscutível. Uma parcela das vinhas da fazenda de Pédebernade, situada em Sarragachies, foi reconhecida como Monumento Histórico – primeira vez para um vegetal – por ser uma prova viva dos métodos de culturas antigas e de sua disposição, até hoje, singular. Além disso, a parcela das vinhas préfiloxéricas do vilarejo de Saint-Mont, continua a brotar magníficas uvas que fazem excelentes vinhos. Graças aos cuidados especiais, essa pequena parcela de vinha continua a viver e garante aos viticultores um trabalho semelhante ao de conservadores de museus, com a diferença de ser um trabalho em algo vivo e ainda ativo.

Falta ainda mencionar a literatura, os autores antigos como Jean-Charles Chapuzet (com os vinhos de Cahors), passando também por Rabelais, da poesia e de todas as canções « paillardes » ou outras, que nasceram graças ao vinho e sua convivialidade, dos costumes et dos traços culturais inerentes a essa bebida. Logo, não é de se surpreender que uma Aliança Francesa apoie um ateliê deste gênero, ainda mais levando-se em conta o lado cultural do vinho que deve imperativamente ser reconhecido. Se as vinhas do mundo inteiro têm uma história para contar, as videiras francesas podem e devem se orgulhar de traçar as mais belas linhas.

Alexandre Beyrie parcelle vignes préphylloxériques saint-mont

Alexandre Beyrie, responsável da promoção dos vinhos bio de Saint-Mont, em frente à parcela das vinhas préfiloxéricas.

No momento atual, onde valorizar a qualidade e o patrimônio é a filosofia do « made in France », é de extrema importância reconhecer o valor da dimensão cultural do vinho, principalmente quando se fala em exportação. Muito além de uma garrafa que contém um líquido, é uma parte de « terroir » irrigada de « savoir-faire » que se adquire com o vinho ; é, mais precisamente, essa mensagem que deve ser passada para que cada vinho possa contar sua história, bem longe da estandardização de produtos e de práticas.

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